Quando o Imprevisível Começa a Pensar (ou A Epistemologia do Excesso)
Penso não existir uma posição exterior, neutra ou soberana a partir da qual eu possa simplesmente observar a desordem contemporânea. O que existe são operações capazes de produzir distâncias provisórias, deslocamentos e pontos de observação dentro da própria desordem. Como produzir pensamento quando aquilo que chamamos de realidade já é constituído por uma quantidade incontrolável de discursos, imagens e informações que disputam simultaneamente nossa atenção e nossa percepção? Nesse sentido, interessa-me mais experimentar esse excesso contemporâneo, incomensurável e “infinito na medida imensa”, do que resolvê-lo. Não procuro estabelecer procedimentos destinados a organizar o caos para torná-lo compreensível. Minha proposta é construir dispositivos capazes de permanecer dentro dele e fazê-lo produzir pensamento. Aqui se estabelece uma tomada de posição epistemológica: se o mundo chega até nós como excesso, reduzir esse excesso a uma narrativa limpa, coerente ou, quem sabe, conclusiva significaria justamente reproduzir a lógica que a própria obra questiona. Por isso, a acumulação, a repetição, a fragmentação e a sobreposição funcionam como maneiras de manter as contradições vivas; de perturbar a perturbação; de fazer o circo pegar fogo. Por outro lado, interessa-me investigar o que acontece quando coloco em circulação materiais, regras, fragmentos e sistemas que passam a produzir sentidos que já não estão inteiramente sob meu controle. O que se coloca em jogo é uma investigação sobre a produção de subjetividade em um ambiente saturado de signos e símbolos, no qual já não somos apenas consumidores de informações, mas também seus arquivos, transmissores, remixadores e produtores quase involuntários. Diante dessa premissa, minha produção, composta por cartazes, livros de artista, zines, quadrinhos, textos, bancos de fragmentos, vídeos, apropriações, desenhos, objetos e algoritmos, pode ser pensada como diferentes máquinas para fazer o excesso operar: transformar o excesso de mundo em experiência sem abraçar a ilusória e ingênua vontade de adestrá-lo. Não sinto que o mundo (contemporâneo) se apresente como um objeto estável que eu possa observar e representar, mas como um sistema de fluxos e contrafluxos, discursos e signos no qual estou implicado, como qualquer sujeito. Minha obra pode, sim, representar esse caos informacional, mas a proposta é ir além: incorporar o caos como procedimento, reproduzir sua mecânica saturada de excesso, deslocar seus elementos e criar condições para que, dentro dessa saturação, o imprevisível comece a pensar.
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