Narrar histórias faz parte do homem. É algo que sempre se demonstrou intrinsecamente ligado a qualquer cultura em qualquer lugar. Entretanto, é fato que, algumas divergências se podem encontrar entre as histórias que as pessoas preferem contar, e, principalmente, escutar. Há aqueles que preferem terror, os que anseiam por aventuras e, demasiadamente, os que se entregam aos contos de amor. Todavia, muitos outros existem. O artista Fabiano Gummo compreende esse poder e encantamento da diversidade narrativa, seja ela contada ou pessoal, e desse modo, expressa através de diversas mídias (entre elas vídeo, desenhos e vídeo performance) o potencial mental do ser humano, mesmo em seu cotidiano. Na exposição, Coração Gordo: a multiplicidade experimental de Fabiano Gummo que pretendo focar, o artista concentra-se em desenhos. Mais que isso, em “rabiscos” com caráter de histórias em quadrinhos. Devo dizer, quadrinhos sempre me fascinaram, pois não possuem preconceitos, não insultam nem ao adulto ou a criança, assim como não fecham as portas à história mais banal ou fantástica. Não há limite, impossibilidades ou imprudências, ao contrário, as coisas acontecem, os traços ousam e os desenhos expressam-se de modo que outra mídia não conseguiria fazer igual; talvez melhor, pior, mas com certeza não igual. Gummo apropria-se desse aspecto dos quadrinhos. Diferente de diversas exposições que encontramos em galerias ou museus, nas obras do “artista quadrinhista” não há uma linearidade isoladamente proposta aos observadores. A galeria cobre-se de obras, na maioria, pequenas, outras pouco maiores, porém o mais interessante está naquilo que expressam e consequentemente nas leituras e percepções pessoais que os visitantes alcançam. Aprecio um desenho, e posso imaginar o que aquele rapaz gordo (pelo menos foi assim que pude identificar a tal figura impressa em um dos desenhos) está fazendo ali, de pé, como alguém que observa aquilo que está fora do quadro. Posso conceder àquilo uma narrativa que segue o próximo desenho, e outro, e assim por diante. Também, é possível que toda a história que criei jamais tenha passado pela mente do artista, mas tudo bem, eu a vejo mesmo assim. Suas páginas em cadernos baratos ou cansons de gramaturas altas, geradas a partir de diferentes materiais (entre canetas, aquarelas e lápis) permitem que eu narre, eu crie e recrie o que vejo. O artista fez, mas permitiu que eu criasse, pois suas narrativas se estendem para fora da moldura (por vezes, ela nem existe). A arte de Fabiano Gummo rompe as molduras, respeita o público e sua carga cultural. É humilde e convidativa. Não se fecha em um mundo próprio, mas flerta com a criatividade e vontade de todo aquele que esteja aberto a permitir-se narrar, todo aquele que queira contar algo. E sabemos, todos temos algo a contar.
Murilo Perin
Pelotas, Setembro de 2012.