TIO HANS (2020)


Tio Hans possuía um estranho brilho nos olhos, que eram afastados demais, grandes demais. Diferentes. Além disso, ele mancava e arrastava a perna esquerda. Ele tinha cinquenta e cinco anos e morava no décimo segundo andar de um prédio no centro da cidade. Seu apartamento tinha uma cozinha conectada a uma sala pequena, um banheiro e dois quartos. Ele dormia na sala, em cima de um sofá velho em frente à televisão. Os dois dormitórios eram utilizados exclusivamente para acomodar sua coleção secreta de caixas de papelão. Anos antes ele havia entrado de corpo e alma em dois casamentos. Ambos naufragaram. O primeiro foi um turbilhão de sentimentos retrógrados que o devastaram. O segundo, com Adele Maria, foi pautado pelo alcoolismo, pela neurose e pelo ciúme. Tio Hans não era capaz de viver regrado na rotina de casado. Não que ele se importasse muito com isso, mas hoje, em especial, se sentia sozinho e ansiava pela companhia de uma mulher. Aos dezessete anos Tio Hans conseguiu com muito esforço entrar na universidade. Foram os piores 3 anos de sua vida. Resolveu que seria químico e tentou de todas as formas atingir esse objetivo. Mas as aulas o entediavam e sempre criava subterfúgios para não obter sucesso. Cancelava disciplinas e não comparecia às aulas. Seu processo era sempre o mesmo: tentativa, sabotagem e fracasso. Ao final do terceiro ano, desistiu. Aos 23 anos de idade, Tio Hans ainda morava com a mãe que era viúva. Trabalhou como uma espécie de faz-tudo no bairro e passava boa parte de seu tempo livre lendo histórias em quadrinhos ou revistas de ficção científica. Nesse período ele costumava usar maconha e beber muitas cervejas. Foi detido pela polícia duas vezes por agressão física e prometeu que mudaria. Era um início sutil para muitas outras incursões à delegacia. Tempos depois, Tio Hans se arrependeria destes anos inúteis. Hoje Tio Hans trabalha em uma revendedora de automóveis. Adquiriu esse emprego como um favor de um de seus primos. Sua função é lavar os automóveis da loja. Depois que lava a lataria, ele limpa o interior dos veículos com um aspirador de pó. Um trabalho maçante e braçal. Como ele ainda é alcoólatra, dificilmente consegue chegar antes das dez da manhã no trabalho. Quando consegue, vai até a cozinha e prepara um café. Geralmente ele utiliza 3 colheres de sopa para 3 canecas de água. Usa o filtro de passar café número 102 que. Com a caneca de café cheia até a boca, Tio Hans acende um cigarro na garagem. O café e o cigarro trazem-lhe uma gostosa sensação. Com essa mistura, a vida parece assumir uma aura misteriosa de sentido e esplendor.