DEVIR-LIVRO (2023)


Um emaranhado. Uma vida-labirinto. Sem início. Ou fim. Como um livro. Repleto de experiências e acontecimentos. E ações. Um livro com pontas soltas. Sujeito ao acaso. Irresponsável. Modificado. Com ruído. Com páginas viradas ao avesso. Um livro com a dinâmica do inapreensível. Corrupto. Esvaziado de lógica. Eviscerado de razão. Bruto e não-velado. Um livro vivido. Escondido entre a pele e o osso. Ventilado o suficiente para manter o respiro. O oxigênio. A aura sutil de novas escrituras e a lenta densidade mordaz do assalto. Um livro assim. Mortalmente árido. Que estabelece o nada em direção àquilo que está por vir. Que rompa a vida para o além da vida no livro. Com determinação inversa-e-indeterminada. Que irrompa a linha destruindo o meio e que a narrativa borre o instante da incerteza no instante da sugestão. No instante seguinte. No existir entre. Resistir em frente. No abissal instante do fim. Existir para descolar a existência desse programa fluido. Para além da topologia desértica estéril e seca transnordeste. É possível olhar a casa-livro, o corpo-livro, o livro-mente, o livro-morte, o livro da vida. O domo protetor de ferro e aço que burla o sistema de segurança da consciência e que violenta o passado que se dirige para o presente perpétuo. Tempo trespassado pelo ligeiro deslocamento de ar quente na ravina de possíveis pampas mentais.  Rosto-mapa. Rosto-pergaminho. Tábua criptografada das vidas. Antologia primal escrita na cara. Destruição altruísta de alguma coisa antiga e secular. O olho da revolta que crema momentos em fogueiras de sal. Esse é o livro-derivado-do-mar. O livro que nunca se fez completo. Que nunca procurou nada nem ninguém. O livro sem capa sem retrato. Que nos impede de ser sendo. Que impede o ser. Que nos impede de não-ser-não-sendo. 

Vamos respirar.

D-vagar. 

Mais uma vez. 

Assim.