UNIV4RSO (2014)
O destino deste exercício textual não repousa no que você está lendo, nem no entrelaçamento dos personagens. Ele reside na esfera das imagens mentais proporcionadas. A escrita a seguir também não dirá nada daquilo que pode ser e sim do que não pode ser. Do visual não-ser, bem como do devir imagético. É o exato oposto das regras estabelecidas aos autores pelo mercado editorial sério. Dentro de 10 minutos restarão apenas algumas lembranças e o que você estará fazendo daqui a 15 minutos é o que de fato importa.
Existe algo de esquizoanalítico na casa 111 da Alameda Wamosy. Uma palmeira enorme cresce dentro de uma piscina cheia de terra. É como uma desestruturação incerta de um mundo inteiro de rachaduras e reentrâncias. É possível pensar um objeto tridimensional (a casa) como algo vivo no espaço? A vivência nos informa que não. Isso não é realizável, entretanto, parte dessa vivência só é resultado quando nos colocamos em confronto direto com o trauma do discurso. Da mesma forma que a história de uma vida a casa abisma o inconsolável. Na verdade, essa é sua maior virtude; é uma característica intra-corrosiva. Uma comoção d’almas cria estratagemas dentro das porosidades subcutâneas do porão. Escutamos um lamurio ruidoso orquestrado por zumbis. Nos corredores da mansão notamos a marca de múltiplos passados (marcas indestrutíveis do/no tempo). A parte externa é sólida e translúcida. Possui um rosto – e vários. Seu corpo, da casa, está sempre em perspectiva explodida. O zipt da impressora jato de tinta. O flip-flap-flop do envelope no balcão dos correios. Hirrrrrrc. Logo abaixo, a assinatura do diretor do instituto e alguns códigos informando a data, o tipo de equipamento, a marca, o modelo e o número de série do rolo de negativos. Esta fotografia chegou dentro de um malote junto com outras correspondências, dívidas e boletos bancários. Vista de cima, a casa é um mapping real precursor de inúmeros rastros existenciais acidentados na combustão do ir. Para enxergar a fumaça imediata, em alguns casos, é melhor se afastar. Nos dutos subterrâneos da casa são expelidos labirintos pictóricos de linhas que extravasam milhares de referências nucleares. Lembra um pouco os sintomas de alguém que precisa pesquisar infinitamente: reclusão, desaparecimento emocional, aposentadoria precoce, clausura, distância da mídia, distanciamento da família, depressão e morte. A alameda inteira flutua na g-zero do espaço sideral consumindo patógenos do tamanho de bolas de basquete. Uma rua que assume formas de antigas embarcações. O tempo todo. Sua estrutura variável de microfilamentos e minitubos corrompe o tecido espacial, é parte dele e é todo ele – sem budismos. O espaço acima do espaço vazio da mansão é o ponto de culminância de uma imensa especulação evolucionária. O percurso ao redor da casa foi concebido conforme a teoria das redes que se interpenetram consolidando uma nuvem química de possibilidades em direção a lugar algum. Em dois dos principais quartos, em cima das camas, altamente elegantes, estão acontecendo ao mesmo tempo, duas orgias de Wolfenstein 3D e Duke Nuken 3D (e 2D, também). Além disso, no hall de entrada, o sexo místico-natural pode ser transformado em tática de guerrilha de extrema velocidade e imprevisibilidade. Tudo integrado com suor e lascívia. Nos becos perpendiculares à Alameda Wamosy, logo abaixo da torção, artistas relacionais lançam mão de seus diários esperando amigos homossexuais, heterossexuais e alguns crossdressers que tenham coragem de invadir a câmara de vereadores e atear fogo em tudo. Quando me vi perdido ali, no meio da casa, em 2004 (e em 2010 e 2014), com um canhão de elétrons apontado direto no meio da minha cara, com toda aquela possibilidade gráfica vertendo do nariz. Fui para o alto da mansão, de onde eu podia ver a UTI neonatal, e desejei uma resolução para uma vida sem truques. Entendi que a Subcultura existe, funciona e até pode te aliviar, mas não é a saída. Estamos na praia. Diagramas da estrutura de usinas elétricas são atravessados por rabiscos e múltiplos pontos. Logotipos de postos de gasolina flutuam entre massas de cor lúgubres como se fosse algo hiperventilado. Frentes de ondas sonoras longitudinais se propagam golpeando a atmosfera, ressonando nas moléculas de ar. Personagens abduzidos perambulando perdidos sem pernas em becos construídos nos entremeios de caixas-pretas empilhadas dentro de cenários monocromáticos. Tabacarias e lancherias se confundem dentro de máquinas de lavar. O rugido das ruas. A ganância do sono. Viadutos. A mansão agora dorme, estamos a 11 minutos de distância da pirâmide rotatória. Leio a manchete no outdoor dinâmico que passa por nós a duzentos e trinta e quatro quilômetros por hora. O MUNDO MORRE. Depois de tanto tempo na clausura, eu já nem pretendia mais abrir os olhos. E depois de pensar sobre múltiplas leituras de um mesmo alguém, percebo que não carregamos nada prefixado nem conseguimos cancelar o drama do vivível. Eu não mentiria sobre esse assunto, pois jamais voltaremos a nos ver.