As abordagens de um pós-ilustrador daltônico
As abordagens de um pós-ilustrador daltônico
Mesmo quando o mundo desmorona, existe um artista que permanece no centro, que se torna mais solidamente fixado e ancorado, mais centrífugo, à medida que se acelera o processo de dissolução. E esse homem, meus amigos, chama-se Fabiano Gummo.
Por trás de todas as minúcias da vida, por trás do caos de sua visão adulterada, por trás da profunda irrisão de todas as formas de amor não correspondido, Gummo é capaz de perceber o padrão do invisível, para então anunciar suas descobertas com o pigmento metafísico do espaço.
Eu costumo dizer que Fabiano Gummo é música saindo como fogo da cromosfera oculta da dor. Afinal, ele é o único hoje em dia com a coragem de sacrificar a linha harmoniosa a fim de captar o ritmo e o murmúrio do sangue.
Estou agora numa galeria de arte em São Leopoldo, cercado pelos coelhos e ratos de Fabiano Gummo. No limiar deste grande salão, cujas paredes agora estão em chamas, paro por um momento para me recuperar do choque que se experimenta quando o habitual cinzento do mundo é rasgado pela cor da vida.
Em pé, no limiar do mundo que Gummo criou, volto a experimentar a força da revelação que permitiu a Basquiat deformar tanto o quadro da vida, que somente aqueles que, como ele próprio, são sensíveis à alquimia do som e do sentido, são capazes de transformar a realidade negativa da vida nos contornos substanciais e significativos da verdadeira arte.
Fabio Godoh