O desenho está em movimento e é o próprio movimento.
>> Meu trabalho em desenho parte frequentemente de imagens, corpos e situações que tem alguma proximidade com o cotidiano. Porém, durante o processo, deslocamentos, deformações e combinações tornam instável aquilo que deveria ser familiar. Não é a monstruosidade objetiva (explícita) o que importa, mas o momento em que a própria ideia de normalidade começa a parecer monstruosa. Os personagens que aparecem nesses trabalhos ocupam uma região ambígua entre o humano, o caricatural, o grotesco e o absurdo. Seus corpos são excessivos, frágeis, deformados ou inadequados; entretanto, continuam realizando gestos banais, vestindo roupas reconhecíveis, relacionando-se entre si ou simplesmente ocupando o espaço como se nada estivesse fora do lugar, como se estivessem posando para uma foto. É nessa convivência entre anomalia e normalidade que o desenho se afirma. Há também uma aproximação deliberada com linguagens gráficas provenientes dos quadrinhos, da ilustração, da cultura popular e de imagens que atravessaram minha formação visual. Esses repertórios não aparecem como homenagem ou citação nostálgica, mas como materiais passíveis de contaminação. As cores familiares, as estruturas de página, os personagens e os vários códigos associados ao entretenimento podem servir de suporte para o desconfortável, o violento, o absurdo, enfim, o 'difícil de classificar'. O desenho funciona, assim, como um campo de experimentação onde humor e repulsa, familiar e estranho, precariedade e excesso permanecem simultaneamente ativos. É uma corrupção deliberada da linguagem. Não procuro (não consigo) estabelecer uma iconografia estável nem construir uma narrativa fechada. Me parece mais apropriado perseguir imagens que parecem pertencer ao nosso mundo, mas nas quais alguma coisa já deixou de funcionar exatamente como deveria. <<
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Os desenhos de Fabiano Gummo atravessam diferentes formas de construção, procedimentos e relações entre imagem, palavra e narrativa. A produção é apresentada aqui a partir de cinco campos de aproximação, que permitem percorrer o conjunto por diferentes modos de operação, mantendo abertas suas sobreposições, deslocamentos e contradições, sem dissolver sua heterogeneidade.