Iniciada em 2012, Mais para a eternidade do que para a vida é uma videoperformance em tempo real construída a partir da apropriação e remontagem de vídeos encontrados no YouTube. O acervo reúne imagens que, por diferentes razões, atravessaram momentaneamente a circulação ordinária da rede: vídeos que viralizaram, acontecimentos transformados em memes, personagens improváveis, discussões entre políticos, fragmentos de televisão, declarações públicas, acidentes, fenômenos inexplicáveis, manifestações de crença, absurdos cotidianos, gameplays, livestreams, "detonados" e imagens cuja popularidade parece bastante desproporcional ao seu conteúdo.
Durante a performance, o artista seleciona o material, recorta e cola em tempo real. Não há uma narrativa previamente estabelecida. A montagem acontece como uma operação de escuta da própria rede, do próprio momento, fazendo com que fragmentos originalmente dispersos produzam novas conexões, aproximações e sentidos. O procedimento oscila entre arquivo e improviso, entre curadoria e, principalmente, acidente.
O título da obra apropria-se de uma fala descontextualizada de Silvio Santos (proferida no programa Show de Calouros, SBT, 1988, dirigida agressivamente a Roberto Marinho) e funciona como uma espécie de provocação. Aquilo que a internet apresenta como momentaneamente relevante, o vídeo que “bombou”, o meme da hora, a imagem compartilhada milhares ou milhões de vezes - é retirado de sua circulação imediata e tratado como matéria para uma espécie de arquivo absurdo e fluido. A promessa de eternidade é aplicada justamente ao que parece mais descartável. Há, nesse procedimento, uma dimensão assumidamente irônica e debochada. A performance não procura conferir solenidade ao material apropriado, nem sacralizar nada, mas tensionar a distância entre aquilo que se decidiu preservar e aquilo que simplesmente cessa de ser compartilhado. O humor surge do choque entre imagens, da repetição, da descontextualização e da aproximação entre acontecimentos que, fora dessa montagem, jamais ocupariam o mesmo espaço. É um tipo de operação que talvez se aproxime das noções de weird e eerie formuladas por Mark Fisher: o estranho brota quando unimos elementos que não deveriam estar juntos, abrindo espaço para inquietantes desconformidades entre as imagens, seus contextos e a realidade que supostamente representam.
Mais para a eternidade do que para a vida pode ser entendida, assim, como uma experiência de arqueologia do presente: essa tentativa de observar, através dos resíduos da circulação digital, aquilo que uma época produz, celebra, ridiculariza, teme e transforma em espetáculo. Ao invés de buscar imagens exemplares, a performance foca pelo excesso, pelo estranho, pelo banal, pelo viral e pelo aparentemente insignificante. O resultado é uma máquina de montagem do imaginário coletivo, na qual o arquivo deixa de ser apenas um lugar de preservação e passa a funcionar como matéria para novas associações.
Entre a efemeridade do viral e a pretensão da eternidade, a obra permanece nesse intervalo: arquivando aquilo que talvez nunca tenha merecido ser lembrado.
Mais para a eternidade do que para a vida (2012). Detalhe do acervo.
Mais para a eternidade do que para a vida (2012). Detalhe do acervo.
Mais para a eternidade do que para a vida (2012). Registro.